A Autenticidade no Ecrã: Da Herança de Abril ao Amor na Neurodivergência

Vasco Pereira Coutinho é o reflexo de uma era em que a comunicação se reinventou. Nascido em 1987, o outrora péssimo aluno que chegou a passar pelo seminário é hoje um dos rostos mais versáteis do humor nacional. Através de personagens caricatas como a Professora Regina, a Enfermeira Lurdes ou a Tia Bli, o ator conquistou mais de cem mil seguidores no Instagram, atraindo campanhas publicitárias de marcas de luxo. Esta nova dinâmica mostra-nos que não há como dispensar as redes sociais, revelando o humor como uma ferramenta poderosa e direta para comunicar com o público moderno.

O Peso e a Memória de um País Esta geração mais nova, contudo, não vive isolada do seu passado. Houve, noutros tempos, a ilusão de um calendário novo, brilhantemente ilustrada por Sophia de Mello Breyner no poema Revolução: «como puro início / como tempo novo / sem mancha nem vício». Passou meio século desde que a democracia se instaurou em Portugal e o mapa da História sofreu uma alteração radical. Os combatentes da guerra colonial regressaram a casa. As antigas províncias ultramarinas declararam a sua independência. Num curto espaço de um ano, entre 500 a 700 mil retornados chegaram ao país vindos do antigo império, num período de imensa efervescência política marcado pelas primeiras eleições livres, nas quais milhares de mulheres puderam finalmente votar. Que discussões se impõem hoje? Como lidamos com esta herança de pertença e cisão, ainda assombrada por diferendos e feridas históricas?

Escutar os Filhos da Liberdade É exatamente essa a premissa da quarta temporada de Os Filhos da Madrugada. Através de 25 entrevistas a pessoas nascidas depois de 1974, com espaço para encontros com gerações anteriores, o formato tenta auscultar este país que se ergueu em liberdade. Há um cuidado inegável nas escolhas: observa-se a paridade de género e promove-se a escuta de cidadãos de diferentes origens sociais, faixas etárias, áreas profissionais e orientações ideológicas. A viagem começa com uma convidada nascida na Guiné, a primeira nação a proclamar unilateralmente a independência, e encerra o ciclo com a filha de um capitão de Abril. É a televisão a procurar diálogos profundos sobre quem somos.

A Fuga à Ficção Tradicional Curiosamente, a busca por experiências reais e humanas não se fica pelos documentários históricos portugueses. Passamos a vida a ouvir uma frase constante e repetitiva: «Tens de ver esta série». Quer se trate de Os Sopranos, Deadwood, Seinfeld, Breaking Bad ou A Guerra dos Tronos, a pressão para consumirmos as grandes produções de ficção é avassaladora. Década após década, alguém nos tenta fazer sentir culpados por aquilo que estamos a perder nos momentos de lazer. O instinto normal perante esta insistência costuma ser sorrir por educação, enquanto o estômago se enche de aborrecimento pela iminente perda de tempo com os programas dos outros. Contudo, há formatos que desafiam esta lógica artificial e roteirizada, oferecendo uma janela de vulnerabilidade absoluta, como é o caso de Love on the Spectrum, da Netflix.

A Beleza da Vulnerabilidade Ao contrário dos protagonistas dramáticos aclamados pelo público, as figuras centrais deste programa não ganharam vida através da alquimia entre um argumentista e um ator de sucesso. São pessoas comuns, a viverem as suas vidas de forma brilhante e bela com o autismo. Não estão a interpretar um papel. É a única personagem que sabem ser, movidas pela alquimia mágica do amor incondicional e da família. Numa sociedade viciada no consumo rápido do TikTok, as câmaras focam-se em pessoas que esperaram uma vida inteira apenas para serem aceites exatamente como são, e o resultado é absolutamente glorioso.

A Vitória da Conexão Humana A premissa da série pode até parecer um pouco cruel à primeira vista: pegar em jovens no espetro do autismo e filmá-los a ter um encontro amoroso, que é, quase sempre, o primeiro das suas vidas. Assistir a estas dinâmicas é frequentemente desconfortável. Existem conversas que bloqueiam, silêncios demorados, ansiedade social e ataques de pânico. É duro de digerir. Como não lidamos bem com o silêncio, a nossa tendência perante a ansiedade costuma ser fugir. Mas, no meio daquela crueza, surge uma ligação improvável, tão rara como ver nevar em pleno mês de julho. Quando encontram essa faísca, estas pessoas libertam os espetadores dos seus próprios complexos sociais de forma inconsciente e misericordiosa. Ver alguém no espetro a encontrar a sua alma gémea é como observar uma flor a rasgar o betão armado. Pode demorar. Para eles, levou a vida inteira. Acompanhar esta jornada provoca um sentimento inédito a quem assiste. É uma verdadeira sensação de vitória, capaz de arrancar soluços e lágrimas de pura gratidão perante os novos heróis do ecrã, deixando em qualquer um a mais profunda humildade por ter tido a honra de os ver brilhar.

A revolução irreversível da Inteligência Artificial no Ensino Superior

A Inteligência Artificial (IA) é, hoje, uma realidade incontornável. Para muitos, estas palavras evocam entusiasmo; para outros, semeiam receio. Independentemente da reação visceral que provoque, a IA veio para ficar e, se utilizada corretamente, possui o potencial de transformar a educação de forma profunda e benéfica. Para compreender o presente, é fundamental olhar para o retrovisor: estas tecnologias não são novidade, existindo sob diversas formas desde a década de 1960.

Os esforços iniciais focaram-se na robótica e na tentativa de replicar o comportamento humano. Após um período de estagnação, o interesse renasceu no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando as máquinas começaram a superar os humanos nos seus próprios jogos, desde o xadrez até ao complexo Go. Eventualmente, a aprendizagem automática (“machine learning”) evoluiu para assistentes de voz e sistemas de reconhecimento de imagem, abrindo caminho para o momento atual.

A era dos modelos generativos e o desafio pedagógico

A verdadeira disrupção ocorreu no início desta década com o desenvolvimento do ChatGPT e modelos similares, desenhados com o objetivo ambicioso de assimilar vastas quantidades de informação. Em 2023, estes sistemas já respondiam a quase qualquer questão num formato coloquial. “É como falar com uma criança, um amigo ou aquele tio que supostamente sabe tudo”, explica o Dr. Debasis Bhattacharya, coordenador do programa de Negócios Aplicados e Tecnologia da Informação da Universidade do Havai (UH). Segundo o especialista, foi essa acessibilidade que tornou a tecnologia tão disruptiva, especialmente no contexto educativo.

Bhattacharya integra agora uma nova força de tarefa dedicada à pedagogia e currículo de IA na UH, um grupo consultivo focado em desenhar a transformação curricular da universidade. A presidente da instituição, Wendy Hensel, tem sido uma defensora entusiasta desta mudança, argumentando que o ensino superior está numa posição única para liderar esta transição, baseando a inovação na ética e nos valores culturais.

O delicado equilíbrio entre personalização e ética

No entanto, seria imprudente ignorar os desafios. A educação baseia-se no esforço intelectual humano, mas a IA, à medida que melhora a sua capacidade de recuperação de dados, é treinada para agradar ao utilizador, e não necessariamente para o corrigir ou guiar. Existe o risco real de dependência automática sem o devido filtro crítico entre facto e ficção. Além disso, surgem questões prementes sobre privacidade e ética: a IA não distingue o certo do errado, não possui empatia e, atualmente, opera com poucas restrições sobre como partilha a informação que recolhe dos utilizadores.

Apesar destes riscos, as oportunidades são vastas. O ideal educativo de uma aprendizagem personalizada, adaptada ao ritmo de cada aluno, está agora ao alcance através de “agentes de IA”. Estes sistemas autónomos permitem aos educadores expandir a sua capacidade de ensino individualizado. “Posso criar um agente de IA para cada estudante na minha sala de aula, estendendo a minha instrução de forma individual”, nota Bhattacharya, visivelmente entusiasmado com a possibilidade de gerir fluxos de trabalho complexos com supervisão humana.

Investimento e novas estruturas académicas

Enquanto o Havai debate a integração curricular, a Universidade Estatal do Novo México (NMSU) avança com investimentos robustos e infraestruturas dedicadas. Na primavera de 2025, a universidade inaugurou o Instituto para a Prática Aplicada em IA e Aprendizagem Automática (“Machine Learning”), apoiada por um financiamento de 500 mil dólares do gabinete do presidente da NMSU e 2 milhões de dólares do Estado do Novo México.

A missão deste novo instituto é clara: reunir investigadores e educadores para criar soluções práticas para problemas reais. Enrico Pontelli, diretor do instituto, sublinha que o impacto da IA no mercado de trabalho é já profundo, prevendo-se que o mercado dos EUA cresça dez vezes nos próximos cinco anos, ultrapassando os 250 mil milhões de dólares até 2027.

Para responder a esta procura, a NMSU lançará, no outono de 2026, a primeira licenciatura em IA do estado, além de estar a liderar a criação de um mestrado inovador em inteligência artificial aplicada. “Isto é oportuno e extremamente necessário”, afirmou Valerio Ferme, presidente da NMSU, destacando a oportunidade de os estudantes participarem ativamente neste novo campo, desde que o uso da tecnologia seja responsável.

Da teoria à prática: impacto na comunidade

O instituto não se limita à teoria académica. Já demonstrou resultados práticos, como o apoio dado pelo Colégio de Ciências Agrícolas, que ajudou rancheiros a utilizar “vedações virtuais” para monitorizar e controlar o gado em grandes áreas, após incêndios recentes terem destruído as cercas físicas.

Além disso, a universidade tem mantido uma agenda intensa: desenvolveu cursos de educação geral para introduzir a IA a todos os alunos, lançou programas de subvenção interna para investigação e organizou encontros estratégicos com representantes políticos para discutir a integração da IA no ensino superior. Em janeiro de 2026, a NMSU co-liderará um encontro nacional focado nos desafios de promover uma educação de IA eficaz para todos.

A mensagem transversal a estas instituições é que a preparação para um mundo impulsionado pela IA não passa apenas pelo domínio técnico. Envolve, sobretudo, a capacidade de compreender como estas ferramentas podem resolver problemas em diversos domínios, garantindo sempre o seu uso ético e o impacto positivo nos indivíduos e na sociedade.